Brasil

14 de Novembro de 2025

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Em novembro, o Brasil assume protagonismo climático ao sediar a COP30 na Amazônia, em um cenário global marcado por negacionismo e fragilidade do multilateralismo. A conferência busca avançar na implementação de ações concretas, enquanto a imprensa mundial volta seus holofotes para Belém.

Cientistas alertam que a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C está cada vez mais distante, o que intensifica a urgência por estratégias de adaptação — reconhecer que o clima já mudou e exige respostas coletivas. Entre especialistas, há consenso de que o financiamento climático é decisivo: será necessário cerca de US$ 1,3 trilhão até 2035. Embora esses recursos existam, segundo o “Mapa do Caminho”, ainda faltam definições sobre como mobilizá-los.

Esta edição da Newsletter 5 Pontos resume os principais debates que movimentam a COP30. Boa leitura!

1. Brasil almeja liderança da COP30 rumo a acordos concretos

A COP30 teve início em Belém com um quórum considerado excepcional pelas delegações, marcado pela presença de quase todos os países-membros e consolidando um dos encontros mais completos dos últimos anos. Esse engajamento amplo permitiu que a conferência superasse rapidamente as etapas preliminares e entrasse na agenda de negociações logo no primeiro dia.

O presidente Lula usou a abertura para reforçar o papel do país como mediador global, defendendo que realizar a COP na Amazônia é uma escolha que busca aproximar diplomatas da realidade climática concreta. O discurso também exigiu maior compromisso das economias desenvolvidas com o financiamento climático, a transição energética e o cumprimento de metas.

Se mantiver o ritmo e a consistência diplomática demonstrados na abertura, o Brasil tende a sair desta conferência não apenas como anfitrião, mas como articulador central de um novo ciclo de ambição climática.

BBC News Brasil: Trump, metas e legado: o discurso de Lula na COP30 em 3 pontos
Folha de S. Paulo: Lula critica guerras, negacionismo e algoritmos e volta a pedir mapa para fim do petróleo na COP30
G1: Presidência da COP fecha acordo e evita travamento das negociações

2. TFFF avança com US$ 5,5 bilhões, sem a participação da China

O lançamento do Tropical Forests Forever Facility (TFFF) na COP30 marcou um avanço diplomático relevante para o Brasil. Com aportes já confirmados de Noruega (US$ 3 bilhões), Indonésia (US$ 1 bilhão) e França (US$ 500 milhões), além do investimento brasileiro de US$ 1 bilhão, o fundo acumulou US$ 5,5 bilhões logo após ser apresentado em Belém. Trata-se de um modelo financeiro inédito, estruturado para combinar capital público e privado, oferecendo remuneração a investidores enquanto cria um fluxo anual de pagamentos a países que mantêm suas florestas em pé.

Apesar do impulso inicial, o TFFF não contou com a participação da China. O país decidiu não aderir ao fundo, argumentando que a responsabilidade principal pelo financiamento climático deve permanecer com as nações desenvolvidas. A ausência chinesa reduz a velocidade de captação e deixa o total atual ainda distante da meta inicial – US$ 25 bilhões em capital semente, com possibilidade de alavancagem até US$ 125 bilhões.

De qualquer forma, o TFFF se consolida como uma das iniciativas mais concretas apresentadas na COP30, mas sua evolução depende diretamente da expansão da base de investidores e da capacidade do Brasil de manter o tema relevante no tabuleiro global.

Forbes: COP30: Fundo para Florestas Tropicais Atinge Aporte de US$ 5,5 Bilhões
InfoMoney: China decide não investir em fundo florestal criado pelo Brasil na COP30

3. Transição energética no centro das discussões em Belém

Os apelos para que o uso majoritário de fontes energéticas deixe de ser ancorado nos combustíveis fósseis (como petróleo e carvão) e migre para a chamada energia limpa alcança níveis urgentes, ocupando o centro das discussões na COP30.

O planejamento estratégico intitulado “mapa do caminho” traz etapas, prazos e responsabilidades de cada país na substituição do petróleo, gás e carvão por fontes renováveis e eficiência energética.

Um dos acordos obtidos em Belém nesse sentido foi o Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis. Assinado por dezenove países, visa quadriplicar o uso de combustíveis não poluentes ou de baixo teor de poluentes, como etanol e biodiesel, até 2035.

Exame: Belém 4x: 19 países firmam compromisso para aumentar uso de combustíveis sustentáveis
National Geographic: O que é a transição energética, tema urgente da COP30 que coloca o Brasil como exemplo

4. Impasse sobre meta global de adaptação climática gera tensão

As negociações para definir uma meta global de adaptação (GGA, em inglês) enfrentam resistência de um grupo de países africanos e árabes. Eles pedem que a adoção de indicadores que possibilitem medir o progresso de ações de adaptação climática seja postergada para daqui a dois anos, na COP32.

Dessa forma, até o momento, as metas de adaptação permanecem como o grande ponto de tensão para determinar o saldo político da conferência. Para o Brasil, entregar a Meta Global de Adaptação seria um legado estruturante da COP30. Sem um acordo nos próximos dias, porém, o risco é prolongar indefinições e comprometer a capacidade global de medir e acelerar a resiliência climática num cenário de eventos extremos.

Folha de S.Paulo: África freia avanço de negociação sobre adaptação, prioridade do Brasil na COP30
Poder 360: COP30: consultas avançam, mas a adaptação climática gera novo impasse
Jornal Nexo: Como a adaptação climática aparece nas discussões da COP30

5. Movimento indígena e sociedade civil ampliam participação

A abertura da Cúpula dos Povos marcou o início de uma programação que reúne milhares de representantes de comunidades tradicionais, movimentos sociais e organizações populares paralelamente à COP30. O primeiro ato político do encontro foi a chamada “Barqueata”, uma manifestação de mulheres, jovens, ribeirinhos, pescadores, quilombolas e agricultores, navegando em barcos nas águas do Rio Guamá.

Uma das principais lideranças do movimento indígena, o cacique Raoni Metuktire, de 93 anos, deu entrevistas nas quais critica iniciativas como exploração de petróleo na foz do Amazonas, hidrovias e o asfaltamento da BR-319, argumentando que representam riscos diretos aos territórios e ao equilíbrio da floresta. Segundo ele, esses projetos não trazem benefícios reais às populações locais e ignoram alertas feitos desde a Rio92 sobre a necessidade de preservar a floresta em pé.

A participação popular na COP30 também teve momentos de tensão, especialmente quando manifestantes entraram na área reservada a diplomatas e representantes de governos, a blue zone. Apesar de reconhecer “excesso”, André Corrêa do Lago, presidente da COP, destacou que episódios assim fazem parte de democracias e reafirmou o caráter aberto do encontro.

Agência Brasil: Cúpula dos Povos traz demandas e reivindicações da sociedade à COP30
CNN Brasil: Projetos de infraestrutura na Amazônia são ameaça à floresta, diz Raoni e Acontece em um país democrático, diz presidente da COP sobre invasão