Sobre sapatos, adaptação e sobrevivência

VOLTAR

reflexão de Mia Couto sobre “os sete sapatos sujos” que devemos deixar na soleira da porta dos novos tempos é tocante por ser ao mesmo tempo universal e individual. As ideias apresentadas causam atraso e colocam em risco a sobrevivência de grandes grupos, mas afetam também o desenvolvimento de cada indivíduo. A transversalidade da reflexão é sua força. Qual é, contudo, o próximo passo? Se há ideias tão presentes e prejudiciais, quais são os calçados que devemos usar em substituição aos sapatos sujos que deixamos na soleira?

Vamos brincar de “Mia Couto ao contrário” e listar os sapatos que devemos calçar para os desafios de hoje. Foi possível elencar sete ideias que deveriam nortear indivíduos, economia e sociedade:

(1.) Pensamento de longo prazo. A economia comportamental demonstra que modelos econômicos tradicionais falham em capturar a irracionalidade de decisões humanas. Temos dificuldade em avaliar impactos de longo prazo. Mas o tempo urge: estamos longe do necessário para evitar catástrofes climáticas. É como se estivéssemos combatendo um incêndio florestal com mangueira de jardim. Em nome da sobrevivência, precisamos incluir o longo prazo em todas as decisões, como indivíduos e organizações.

(2.) Senso de urgência. Ideia que complementa a anterior. Há questões que parecem merecer maior atenção, mas as consequências de nosso impacto nos impõem agir para amenizar dores agudas ao mesmo tempo que tratamos doenças sérias, mesmo que pouco notadas. Mudanças climáticas são comparáveis com um câncer que se espalha silenciosamente, com sintomas até imperceptíveis. A negligência com diagnóstico e tratamento no tempo certo pode ser fatal.

(3.) Reconhecimento das externalidades, definidas como os efeitos colaterais de uma decisão sobre quem não participa dela. Há duas etapas para se aplicar tal conceito. A primeira é reconhecer que elas existem e mapeá-las. Depois, é preciso reduzir o impacto e internalizar o custo. A ausência desse processo faz triunfar a lógica de privatizar lucros e coletivizar prejuízos, um profundo desrespeito às pessoas e ecossistemas.

(4.) Materialidade. Mia Couto critica a ideia que mudar as palavras muda a realidade. Para ele, “estamos reproduzindo um discurso que privilegia o superficial e que sugere que, mudando a cobertura, o bolo passa a ser comestível”. O entendimento está em linha com a definição do Global Reporting Iniativesobre materialidade: “temas e indicadores que reflitam os impactos econômicos, ambientais e sociais significativos da organização ou possam influenciar de forma substancial as avaliações e decisões dos stakeholders”. Não adianta adotar medidas que “pegam bem” sem agir verdadeiramente. Dá trabalho, mas vale a pena. Segundo estudo do Boston Consulting Group e do MIT, empresas que se concentram em questões materiais relatam até 50% de crescimento no lucro com sustentabilidade.

(5.) Entendimento de que não há soluções simples para problemas complexos e valorização da ciência. Resolver questões difíceis exige dedicação, pesquisa e pensamento crítico. Quando setores da sociedade questionam fatos não alinhados com suas preferências, é urgente valorizar a ciência e combater a preguiça simplista. Como diz o ditado, “fugir de qualquer problema apenas aumenta a distância da solução”.

(6.) Entendimento de que há valor nas diferenças. Há abundante evidência de que a diversidade de origens e pontos de vista é uma alavanca para inovação e, consequentemente, geração de valor. Só com respeito e valorização do diferente conseguiremos encontrar as ideias necessárias para salvar o mundo de nós mesmos.

(7.) Vontade e capacidade de coordenação. Vivemos uma sociedade globalizada que passa por um momento de ascensão do populismo, fragmentação e conflitos variados. Em contextos como esse, é necessário encontrar bases comuns sobre as quais seja possível estabelecer diálogos e descobrir caminhos conjuntos.

Este ponto é o último da lista, mas deve ser o primeiro para a ação prática. Sem coordenação, não é possível agir de maneira efetiva. Por um lado, há consciência de sua importância: o estudo do BCG e MIT já citado mostra que 90% dos executivos acreditam que a colaboração é essencial para o sucesso da sustentabilidade. Contudo, apenas 47% dizem que suas empresas colaboram estrategicamente.

Se já estamos conscientes, que tenhamos coragem de agir. Em 1987, o relatório Brundtland, ou “Nosso Futuro Comum”, começou a deixar claro o tamanho do problema. Que nossa geração calce os sapatos adequados para os desafios à frente e trilhe o caminho da sustentabilidade com dignidade, firmeza, presença de espírito e certeza de que esses esforços são fundamentais para termos a chance de oferecer algum “futuro comum” às próximas gerações.

Autor: Danilo Maeda, Diretor de conta